Fincar em mim

Dessa vez, sem a pretensão, sem se cobrar exageradamente por algo que precisava sentir.

Ela o encontrou… Trocaram muitas palavras, compartilharam suas vidas, deram risada.

Ele que sempre gostou da cor daquelas unhas, só as percebeu depois de algumas horas, quando ela segurou em sua mão, que despretensiosa, pairava sobre a mesa do jantar, ali, sem motivo, mas inconscientemente esperando por alguém que a aquecesse. Ele sugeriu um café, ela que não queria que aquele momento acabasse, prontamente aceitou.

Eles caminharam nas ruas frias de São Paulo, lado a lado, como velhos amigos que há muito tempo não se viam.

Foram para o lugar que ele sempre fez questão de dizer que era o que mais gostava. E ele mal sabia que ela, sempre que passou por ali, instantaneamente dele se lembrava.

Ele, queria o sofá mais confortável, ela, só queria que ele a guiasse e mostrasse o melhor, dentre todos os que estavam ali, ocupados.

Encontraram. Ambos se esparramaram e as mãos voltaram a se entrelaçar. Mais palavras. Ele era capaz de entender os momentos pelos quais ela passava, talvez os vivesse também.

Naquele momento, ela queria o colo que tanto pediu a ele. Encostou sua cabeça naquele ombro e sentiu o lugar mais confortável do mundo. Recebeu o carinho das mãos que ela mesma esquentara. E queria sentir cada molécula de calor que aquele rosto poderia lhe dar. Não se antecipou, nem sentiu aquela ansiedade presente em quase todos os seus atos. Fechou os seus olhos, mas sabia exatamente com quem estava, onde estava e porque estava.

Os lábios se encontraram. A respiração parecia cessar, o ar, faltar. O coração batia rápido, contratempo dos carinhos, que pareciam tão lentos, e tão certos.

Ele sabia, como já fizera no passado, e disse em seus textos. Sabia explorar exatamente sua nuca. Sabia como tirar seu fôlego, simplesmente sabia…

Era automático, era simples. Era natural. Eram simétricos. O tempo havia passado, sabiam disso, mas ignoravam. Era como se fosse ontem.

Ontem, que se viram, que almoçaram, que foram ao cinema, que passaram noites em claro, que se conheceram. Que se acharam.

E dentre todas essas particularidades, começavam a viver o hoje. Pois o ontem e o amanhã não representavam o instante.

O instante, eles sabiam: deveria ser cultivado, semeado, contemplado. Aprenderam. Sem o agora, não tem depois. Não tem mais nada.

O encontro nunca fora casual, o futuro, nunca fora o esperado. O destino, esse sim. Sempre fora o determinado.

5 comentários em “Fincar em mim

  1. “Era automático, era simples. Era natural. Eram simétricos. O tempo havia passado, sabiam disso, mas ignoravam. Era como se fosse ontem.”

    você não tem a menor noção do quanto esse texto INTEIRO fala de mim. Uma hora te conto. Simplesmente perfeito. <3

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