O dia dos namorados

Tudo que eu queria hoje era continuar dormindo e só acordar daqui a três meses, mas estou aqui às 7:00 da manhã, em vias de passar os próximos não sei quantos minutos reclamando de estar solteira no dia dos namorados. A que ponto eu cheguei.

A que ponto você chegou, perguntei. Depois de algum silêncio em que não  só a boca, mas seus olhos se fecharam, como se tivesse voltado pra dentro de si, ela começou a falar sobre todos os dias dos namorados desde seus 13 anos, com quem estava, quão feliz, ou não, estava, e como cada um desses relacionamentos acabou, deixando-a naquele ponto – de estar solteira no dia dos namorados.

Então é esse o ponto que estou. Daqui a pouco vou me transformar numa daquelas loucas que faz simpatia pra Santo Antônio achando que se pendurar o coitado de cabeça pra baixo vou arrumar um marido.

Algo no jeito com que ela falou marido me chamou a atenção, quase como se a palavra tivesse caído de repente na sua língua e ela a tivesse expelido rapidamente, antes que a queimasse. Ela logo começou a falar rapidamente sobre simpatias, mas interrompi perguntando, É esse o ponto em que você quer chegar, o casamento?

É. Quer dizer, não sei. Acho que vejo o casamento como um destino final de sucesso, que quando alcançado vai me garantir uma vida inteira feliz e sem surpresas. Ontem uma amiga me mandou uma música, certamente achando que ia me alegrar, mas quando li o título, “Se tudo pode acontecer”, nem ouvi. A última coisa que quero pensar agora, aliás, sempre, é que tudo pode acontecer.

Ela emitiu um som que parecia algo entre uma risada e uma bufada, e eu emiti um “Hum”, questionador, tentando fazer apenas com que ela não censurasse o que tinha pensado. Tive sorte, pois ela continuou,

Que louco, lembrei agora de uma frase que falei pra essa mesma amiga da música. Eu acho que foi depois de levar um fora do Diogo, já estava naquela fase de querer melhorar, aí meio tentando me convencer eu disse, se ele apareceu quando eu menos esperava, e foi melhor do que eu poderia imaginar, quem pode dizer quem vai aparecer agora?

Encerrei a sessão, minha primeira do dia. No final da tarde já tinha ouvido  tantas reclamações sobre estar solteiro, e outras tantas declarações exageradas sobre a felicidade de “ter alguém”, que não conseguia parar de pensar em como passamos a vida nesse jogo, buscando o outro, mas ao mesmo tempo reclamando quando ele chega muito perto, querendo estar junto, mas sem abrir mão de fazer tudo do nosso jeito, e aí fui eu quem subitamente lembrou de uma frase antiga minha: amar é abrir mão para dar as mãos. Se eu acreditasse que conselhos resolvessem alguma coisa, imprimiria dezenas de vezes essa frase e entregaria para cada um daqueles pacientes. Mas sei que de nada adiantaria. Por isso no dia seguinte, às 7:00 da manhã estaria ali de novo. Sem papel, e sem certezas, sabendo apenas que se tudo pode acontecer, pode ser que o amor também aconteça. 

 

8 comentários em “O dia dos namorados

  1. A que ponto nós chegamos, ao esquecer que se não pudermos ser boas companhias para nós mesmos, tampouco o seremos para o outro. A que ponto nós chegamos, ao acreditar que se não tivermos alguém hoje, não teremos nunca mais. Hoje é só mais um dia, amanhã já passou.

    1. Esse ponto sim é grave, Miss, concordo com vc.
      E obrigada pelo comentário. Beijo!

  2. “Sem papel, e sem certezas, sabendo apenas que se tudo pode acontecer, pode ser que o amor também aconteça.” … Como pode ser que não. O que em nada impede nosso potencial de amar o amor, amar a vida, amar… E com isso e ainda assim viver grandes, belas e intensas experiências. Sempre são belos seus textos, Carina.

    1. Verdade, Willian, a possibilidade é o que nos move, e ela sempre vale a pena. Obrigada, beijo!

  3. “Amar é abrir mão para dar as mãos.”

    Quanta beleza e quanta dificuldade nessa frase. Digo, o equilíbrio entre as renúncias necessárias e o não abrir mão de ser quem se é. Talvez, isso seja amadurecer.

    Ainda que eu vá soar repetitiva, como estou gostando dessa série de textos. Está sendo meio como estar no divã junto com os personagens.

    Um beijo Ca.

    1. Difícil porque tem mais a ver com viver do que pensar, né, Lóri, e isso é sempre difícil. Fico muito feliz que esteja gostando, viu, obrigada! Um beijo!

    1. Ah, obrigada, amiga. Você sabe que palmas suas valem mais que de uma multidão. <3

Os comentários estão fechados.