sob a cegueira

nunca me esquecerei desse acontecimento
na vida de minhas retinas tão fatigadas.
carlos drummond de andrade
 
 
link da foto

 

o amor me cegou. foi aos poucos. tudo começou no primeiro beijo. mesmo assim, antes da minha boca tocar a dela, eu já era míope. culpa de um platonismo nos tempos da inocência. perto de completar quinze anos outra namorada, e o diagnóstico, a partir de agora eu também tinha hipermetropia. depois veio o estrabismo, quando meu sexo encontrou seu oposto. o côncavo e o convexo. formas geométricas se encaixando no ar. rarefeitos. ardi de paixão. e vi que era bom. a carne sendo verbo. amar. num movimento infinito. ir e vir. astigmata. um vulcão em erupção constante. quanto mais lava escorria, mais a vista ia ficando cansada. de repente as estrelas começaram a cair. uma a uma. catarata. o céu escurecendo. visão turva. caminhava com dificuldade. às vezes precisando de ajuda pra atravessar a rua. passei a falar mais, já que via cada vez menos. cantarolei. eu tenho tanto pra lhe falar. poema. conto. crônica. não sei dizer. imagino. todos os seus movimentos. rotação e translação. as estações perdidas. cego. me desespero a procurar. em vão.
 
tomara que a ciência me faça enxergar novamente, 
 
o amor.
 
 
 

5 comentários em “sob a cegueira

  1. Se for a ciência que fizer enxergar, não é amor. O bom é que o próprio amor sempre faz questão de nos fazer enxergar o que importa, mesmo estando cegos. 😉

Os comentários estão fechados.