A arte de viver

Nem todos os desastres são estrondosos. Aliás, eu diria que a maioria deles acontece em silêncio, entre linhas, em um tique de relógio invisível a olho nu. Os desastres espalhafatosos, barulhentos e dramáticos, aqueles dos quais nos lamentamos e pelos quais os outros se compadecem de nós, esses não são os piores, apesar de serem mais temidos. A gente vive com medo de perder: perder bens, perder relações, perder pessoas. E é um medo ridículo, porque essas coisas são impossíveis de se prevenir. Todo mundo perde o tempo todo, e quanto mais medo de perder mais se perde, isso não é novidade pra (quase) ninguém. Eu, depois de perder muito, depois de perder o que eu julgava ser mais importante e ainda assim sobreviver, achei que tivesse aprendido essa lição. E achei também que tinha encontrada a solução para lidar com a perda: perder o medo. Então tentei escondê-lo, esquecê-lo, tentei convencer-me usando toda minha enorme capacidade argumentativa de que ele não estava mais lá, mas ele sempre voltava. Então abandonei essa batalha e fui viver "com medo mesmo" como diz aquele meme chato que você com certeza já leu por aí. E assim eu vivi, perdendo, ganhando e sobrevivendo ao que eu acreditava serem desastres dignos de uma tragédia grega, até concluir que já sabia tudo sobre catástrofes, nada mais poderia me atingir, e eu estava enfim livre do medo. Foi aí que o desastre aconteceu.
E como nas piores calamidades, eu nem sei ao certo dizer quando foi. Só sei que um dia me procurei e não me achei onde acreditava estar. Eu me perdi de mim. E senti ter perdido muito mais do que dinheiro, do que amor, mais até mesmo do que alguém amado levado pela morte. Eu tinha perdido a pessoa que eu acreditava ser. Acontece às vezes de uma perda nos paralisar. Mas nesse caso, como em outros, ela me impulsionou, uma combinação de fuga e negação que não me deixava parar: se não estou aqui, é preciso me mover para me encontrar. Só que quanto mais eu me movia, mais eu me afastava desse eu que acreditava ser, e quanto mais eu me afastava, menos eu queria voltar a me encontrar. Foi então que aprendi que a arte de perder não tem a ver com dominar a perda, não tem a ver com superar, e nem com seguir em frente. Tudo isso é relativamente fácil – o que não significa que não seja sofrido. A arte de perder é a arte de viver a perda e conviver com ela. A arte de perder é, ao fim e ao cabo, a arte de viver.
 
Carina Destempero