Amarelo brilhante

Quando eu era criança, minha avó me contou que cada medo tinha uma cor diferente e que se olhássemos atentamente, veríamos várias cores andando por aí vestidas de pessoas.

“Então é por isso que o Batman é preto, vó? Porque ele não tem medo de nada?”

Depois cresci e não tinha tempo para medos e cores. Trabalhava demais em algo que eu não sabia se queria e voltava para casa para a encontrar com minha única companhia: eu mesmo, um homem verde preocupado de não ser alguma coisa, que não enxergava que o seu maior medo era o de não ser nem uma coisa, nem outra. Tentava fazer inúmeros algos com medo de ser tantas coisas e não ser nada ao mesmo tempo.

Resolvi que queria alguém para dividir meus medos e meu tempo. E pelo aplicativo comecei a conhecer pessoas.

Combinei de encontrar alguém de manhã para tomar um café na padaria. Um amarelo se aproximou, parecia o sol entrando pela porta. Elogiei e escutei um “sou nada”. Contou-me porque estava solteiro: ele não era bom para ninguém, claro, feio daquele jeito, quem ia querer estar com ele? Não adiantou dizer que seu amarelo era maravilhosamente brilhante. Tudo o que ele sabia dizer era como todos eram melhores que ele e como ele não merecia pessoas boas como eu.

Na hora do almoço de uns dias depois, marquei com uma nova pessoa em um restaurante. Outro amarelo entrou pela porta. Talvez mais vibrante. Sentou-se em minha frente e quis saber o que eu iria pedir, pois ia pedir o mesmo. Gostava de tudo o que eu gostava. Não descordava de nada do que eu dizia. Não sabia se queria sobremesa. “Você quem sabe”. Não me contou muito sobre ele, não sabia o que contar sobre si mesmo, era melhor eu perguntar para seus amigos. Quando o rapaz de trás esbarrou em seu braço e derrubou o que estava bebendo, sujando sua roupa e ainda o insultando por estar com o braço onde não devia, pediu desculpa ao rapaz.

Na semana seguinte saí para um encontro à tarde no parque. Um novo amarelo apareceu piscando para chamar minha atenção. Me abraçou e não me soltou mais até o final. Queria que eu o dissesse o tempo todo o quanto gostava dele e que eu faria tudo por ele. Não me deixava olhar para os lados e gritou com a moça que veio me vender água. Queria-me só para ele. No fim do dia, me disse que não deveríamos nos ver mais porque eu não tinha correspondido o amor que me dava.

Algum tempo depois, marquei um jantar no meu restaurante preferido, no centro da cidade. Mais um amarelo veio ao meu encontro. Uma hora atrasado. Não perguntou nada a meu respeito. Contou sobre como era cobiçado e como corriam atrás dele. Depois de racharmos a conta, disse-me com tom de indiferença: “Nos falamos”. Não tive notícias por dias, até vir me procurar no final de semana.

Quase desistindo das relações humanas, ainda combinei um cinema de noite com alguém. Chegamos juntos na frente da bilheteria. “Achei que você ia me dar um bolo”, me falou este amarelo. Seu brilho era mais intenso que os outros. Quando fui comprar os ingressos, achou que eu ia embora. Assustou-se quando eu comprei pipoca. “Por favor, não me deixe!”. Tive que deixa-lo em casa e prometer que ligaria. Dois minutos depois me ligou. “Você não vai me ligar, não é mesmo?”. Liguei. Todos os dias. Cinco vezes ao dia. Por um mês. Depois arranjou um amarelo para ele e se esqueceu de mim.

Resolvi ir caminhar antes de dormi. E encontrei, sentado num banco, o amarelo mais lindo que eu já tinha visto. Tentei me aproximar, ele deixou. Conversamos. Contou-me do seu passado, dos seus medos, das suas inseguranças, das suas decepções em relacionamentos anteriores e que cada dia mais seu amarelo ficava mais forte, porque cada dia mais tinha medo de entrar em um novo relacionamento. Tinha medo de se apaixonar, se entregar e se machucar. E quanto mais evitava as relações, mais amarelo ficava.

“E o que é preciso para você deixar de ser amarelo?”

“Me amar mais.”

Olhei em volta e vi tantos amarelos que se tornavam um amarelo só. Um amarelo andando por aí vestido de pessoas.

 

Catarina Bollos 

Cats Bollos é tradutora, revisora e autora do blog http://catsbollos.blogspot.com onde escreve sobre as relações humanas.


Desafio da Semana:

24/07 - Viva cor!

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