Diante do desafio

Uma cor não é coisa de corpo. Duas pernas, braços, tronco e cabeça. Uma cor é coisa que vaza, que extravasa. Uma cor só pode ser coisa amorfa, derretida, molho. Cor é o que faz da vida um prato meio fundo com uma porção d´água em movimento bambolê. Será que existe algum perigo se uma gota fugir das bordas? Pra onde é que vai a tinta que se apressa demais nas curvas? Será que infiltra o vazio?

Você sabia que não existe cor maciça? Se eu estiver errada me corrija, mas parece que tudo é uma questão de luz.

Para não ficarmos mergulhados, deslizando sem fim por todos os sentidos que às cores escapam, você me desafia à visão de um boneco palito e do triângulo que duas pernas-compasso podem estruturar. Uma cor-gente, uma cogente?Criado, então, o recorte, o diagrama cromático.

Mas diante do desafio será mesmo preciso fingir que a cor é humana, como fingimos, às vezes, que os cachorros são gente? Por que é tão difícil aceitar qualquer coisa que apenas seja? 

No parque da cidade o filhote de cervo que saltita a quem eu chamo de Bambi, a quem eu atribuí um personagem e uma narrativa, a narrativa daquele animal que perde a mãe e passa a viver só na floresta. Se foi possível com ele, se WaltDisney foi capaz de um romance sobre ele, vamos aqui ao experimento de neurotizar não um animal, mas uma cor, de fazer a cor não poder mais cumprir o seu destino, vamos enxertar nela uma linguagem, como fizemos ao Bambi. A cor-sujeito, cansada de ser adjetivo, nunca mais cor-de-burro-quando-foge. Cor-de-bambi-quando-foge. Uma fuga, agora em maiúsculas e com as pernas tão compridas quanto as de um cervo. Mas apenas um par, como são as pernas dos homens e  as pernas das sereias quando desejam ser mulheres. Uma história mais ou menos como a da Pequena Sereia que renuncia à sua voz em prol de alguma-outra-coisa. WaltDisney também, veja só! Uma história como aquela da sereia que se entrega como… serva?

Minha cor é uma serva [ou seria do masculino cerva, de cerveja?]. Vamos lá: uma mulher sob domínio. Sob o domínio de quem? Se tudo é uma questão de luz, o lampejo: engendro que seu nome é Amarela. Taí.

Amarela sempre teve medo de tudo quanto foi breu. Acendia lâmpada de abajur desde pequena. Depois de grande, o sol. Vaguejava na praia, ainda quando inverno. É parente dos olhos de todo automóvel, e adora os olhos dos aviões. Tem no DNA as nuances do outono, o fogo. Amarela na banana quando é fome; o furo do abacaxi. Descendência é uma coisa que se desdobra assim, de um modo tal que a gente nunca sabe quem é quem na ordem genealógica, entre corços, veados e… sereias.

Amarela toda ela lógica, menina. Acende apaga, acedente-apaga. Claro-escuro- claro-escuro. Controle, confiança. Mas de repente o azul, ai verde. Mas de repente o vermelho, ai laranja. Amarela, de repente, uma paúra roxa. Um medo de contaminação. Um corpo com medo de ser parte, mistura, introjeção. Intermitente, semáforo. Qual o medo do arco-iris? Veado. O pote de ouro do outro lado, o lado de onde ninguém voltou ainda para contar; a descendência de dourados que é feita de mistérios. De alguma coisa que já não é corço, é desacorçoamento. É a cauda do peixe, estrela do mar, um chiste.

Mas vamos ao dia de hoje, andando por aí sem mais atrasos: Amarela se levanta e quando levanta parece que fica mais forte. Ordinariamente vai entrando por todos os corredores; se ela acorda ninguém mais dorme. Pelas 9h, já constante, reflete nos olhos e-mails. Olho dentro do ovo, vira almoço. Gema mole, nunca cozida, frita. Batatas-fritas também são ótimas, a cara dela. Então vai fazer as unhas no shopping, mas cor de rica é vermelho – logo desiste. Um trauma. Passa o dia na loja, os pensamentos lá no alto, esperando as vendas, no sorriso branquinho das vendedoras. Um calor, um calor. Pisca-pisca de Natal em pleno verão. Mas é bom ser luz quente, não acha? Eu tenho tanto medo de ser fria. Tanto, ela diz.

A mesma luz quente do abajur vacila perto do divã. Fala, fala, fala. E de repente se pergunta:

Será que pra andar e para ter vida precisa ser gente? Precisa mesmo ter perna? E perder a cauda?

É quando recua diante da resposta, porque amarelou. É sempre assim.

É sempre assim quando diante de uma divisão profunda precisa construir um

Amar-elo

Quando eu era criança passava horas sozinha, assistindo ao filme da Pequena Sereia e comendo sucrilhos, aqueles baratinhos, de milho, bem sem açúcar, sabe? O meu sonho maior era brincar de amarelinha no pátio do prédio, mas ninguém nunca me chamou. Mas, tivessem chamado, será que mamãe deixaria?

 

Andressa Barichello é co-fundadora do projeto de coinspiração cultural fotoverbe-se.com. É autora de Crônicas do Cotidiano e Outras Mais publicado pela Scortecci em 2014 e vencedor do prêmio Alejandro Cabassa da União Brasileira dos Escritores do Rio de Janeiro, em 2013. É também Mestre em Direito e Literatura pela Universidade de Lisboa.


Desafio da Semana:

24/07 - Viva cor!

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