Novo dia, nova história e um novo eu.

Repetição. Tudo está onde deveria estar? Princípio: tonteio minha cabeça em busca de respostas. Quando tudo isso começou? E porque? Levanto o meu sono intrépido. Investigo meu acordar: que lugar? Reconheço uma única coisa: o meu nome na voz aveludada que me chama ao longe. Levanto devagar as minhas dúvidas recorrentes. Teremos um dia lindo, amor!, me promete com juras a voz que me entra a alma. Vou só tomar um banho aqui!, respondo sem saber direito como. Tudo parece estar bem.

Decerto, dia bom. Parque, almoço, café, museu, vinho, sexo e um filme. Fato: a vida parece boa ali. Há paixão. Houve espera. Mas o assombro me toma: me preocupa o escurecer: é a certeza de que não vou restar. Enfim, durmo meu cansaço nos braços de quem me torna o desprevenido necessário.

Uma carícia me acorda. Abro os olhos: visualizo o amanhecer. Me viro: cheiros, lençóis, volúpia, carícias. E o corpo dela se evade. Ficava mais: não quero acordar e saber de mais nada. Avalio o teto, as paredes: no chão, o abat-jour pintado à mão. O colchão rente ao chão e as minhas costas: matemática inóspita. O dia passa solitário: saio pra caminhar. Frente para o mar: as delícias de nunca se saber onde. Eu sou de qualquer lugar?

Há alguns dias, me atordoa a ideia de nunca saber onde acordo. Ou com quem. E minha casa? E eu: quem sou? Não carrego mala. E já duvido de algumas memórias. Minha realidade parece assombrar.

O dia passa calmo. À noite, filosofo uma pergunta ou outra mais profunda com meu par: danço sem música o som do vagar. Durmo a certeza da incerteza. Sou o que me basta: e tento não me pesar.

Madrugada adentra: bate no peito um fervor quente-transparente dos que entraram num buraco de minhoca perdido no espaço-tempo. Choro o gozo dos outros. A vida não é ruim: mas não parece minha. Escolho deitar e dormir um acordar alheio.

Ah!, uma suite de Bach para violoncelo. Não sei se a bouree ou a corante. Sempre confundo. Seis e meia: sinto que essa suite é meu toque de alarme favorito. Estaria finalmente em casa? Acordo devagar e, sem abrir os olhos, tento repassar o dia anterior. Os dias anteriores. Tudo parece tão retórico. Levanto ao cheiro de café: o encantar de uma casa acolhedora: pés de cama, parede descascando, plantas em jarros, varanda e cortinas. Caminho devagar. Uma moça bonita lê de pé, na sala. Se vira, me olha, me mostra qualquer coisa no livro, me fala qualquer coisa que a faz rir, me diz que faz café, pergunta se pode usar os ovos que estão na geladeira e me avisa que pegou meu carregador de bateria de celular pra poder conseguir chamar um carro pra voltar pra casa.

Paro num relance: então aquela é a minha casa? Não reconheço geladeira, presilha de saco plástico, varandas, plantas em jarro, cadeira azul de ferro. Não sei de paredes pintadas naquela cor. Grito de desespero. Quando aquilo acaba? Malfadada maldição. Quem rogou a praga do repetir sem saber? Que mal fiz? Por que eu?

Visto, calço, chaves, saio. Elevador, portaria, corredor, calçada, rua. Vento e frio: desassossego é dentro.

Caminho as ruas devagar. Me olham os excessos: bermuda e chinelo nesse frio? Reconheço o frio. Sinto o julgar. Premedito o meu desespero. Quero tudo que é palpável pra mim: as descobertas materiais em nada me elevam. Sou o que jaz.

Caminho à exaustão. Deixo o caos me tomar. Durmo ao relento: prefiro morrer à inconsciência do saber-me. Deito entre folhagens: um mato suburbano. Florescerei ao amanhecer: me prometo.

E levanto num salto. Estranho o quarto: foi vinho da noite anterior? Sempre acontece. Não! Havia mato. Estranho a cortina: agito a cabeça. Inaceitável. Enguiço: de novo noutro lugar. Outro dia que começa. Minha cabeça fervilha. Levanto sem companhia mas escuto o chuveiro funcionar: adentro o banheiro sem cerimônia e, de dentro do box, um rapaz bonito me olha com amor. Sinto carinho no meu peito: chego-lhe perto: nos beijamos. Banhamos juntos e o destino me acaricia com bondades.

Mas ele tem pressa: trabalha e diz que tem que ligar pra sua mãe que deve estar preocupada. Vai.

Fico. Penso. Paro. Paraliso. Não parece haver nada que eu possa fazer para parar esse ciclo: meu querido e eterno retorno?

Meu mistério sou eu.

 

Quem é Luana Braga?

Lu, Luana. Aquariana alto astral, altas transas, lindas canções. Amante das degustações, das boas prosas, da boa vida… do inconstante.


Desafio da Semana:

24/07 - Viva cor!

Deixe uma resposta