O não-amor

Admito: sou um covarde. Ou pelo menos sei que é isso que você vai achar, mas não me importo. Eu não me importo mais com o que você pensa, aliás, eu nem sei o que você pensa e também não importo com isso. Muito se fala sobre a impossibilidade de explicar o amor, mas o não-amor é igualmente inefável. Então por que ficar? O que eu poderia te dizer que você sozinha não já tenha percebido? Se ainda não percebeu, agora vai perceber, mas para isso é preciso a minha ausência. É preciso a minha ausência física para que você perceba que já estou ausente há muito tempo. Apenas meu corpo, apenas a repetição de atitudes e hábitos tão antigos quanto vazios têm lhe feito companhia há muito tempo. Já não estou aqui e você já não está em mim. Nem eu estou em mim, foi isso que percebi essa noite. Eu me perdi em nós, e agora que o nós acabou percebo que não sei onde fui parar. Você provavelmente vai relutar inicialmente, vai pensar e dizer que foi repentino. Não foi. Seja honesta. Seja corajosa. Olhe pra dentro de si, você vai ver que eu já não estava aí há meses. Sim, eu fui, e sim, você me deixou ir. Então, me deixe ir. Não me procure. Tente se encontrar. Leia este bilhete e jogue fora. Queime. Leia esse bilhete, chore, me odeie, se odeie, e depois renasça. É exatamente isso que eu pretendo fazer.

Carina Destempero

 


Desafio da Semana:

3/07 - Um bilhete debaixo do travesseiro – a perspectiva de quem escreveu o bilhete

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