CLEMENTINA E ZEQUINHA

Clementina era uma menina muito sensível, desde que nasceu, assim diziam e repetiam os seus pais. Sofreu muito para aprender a dormir em seu próprio quarto, não porque não conseguisse dormir em seu próprio quarto, mas porque não conseguia dormir. Conte carneirinhos, dizia o pai, beba um copo de leite quente, dizia a mãe. Mas nada adiantava, pois como era muito caprichosa, contar carneirinhos era coisa séria e fazia com que ela ficasse empenhada na tarefa ainda mais do que se ficasse com o pensamento voando de inutilidade em inutilidade. Tomar leite fazia com que ela precisasse de novo escovar os dentes, e de quebra, ainda ficava prestando atenção no caminho que o leite fazia dentro do corpo dela, retomando a matéria de ciências em seu próprio organismo – ela era boa nisso: em levar as coisas a sério. Mas dormir exigia algo que ela não sabia como fazer, talvez porque não se tratasse de algo que se devesse mesmo saber.

Na cama dos pais, ela sentia que podia não saber de algo, e sem saber como ou por que, simplesmente dormia. Clementina, você já tem onze anos, precisa dormir na sua cama, é uma mocinha, ela escutava. E realmente achava que o era, a menstruação ainda não tinha descido, mas a das amigas dela sim, e ela estava ansiosa para que isso acontecesse, sabia tudo a respeito e queria testar como era a coisa no corpo.

A cada aniversário que fazia, a menina ficava mais ansiosa, pensava e sentia muitas coisa, cada vez mais. Ficava preocupada se o pai tinha se lembrado de pagar a conta de luz, se a mãe tinha conseguido o dinheiro pra pagar a conta do mercado, porque sabia que os pais tinham empréstimo no banco que tinha pagar no começo do mês. Queria um irmão, mas não tinha coragem de pedir, porque já tinha bem noção do quão caro isso seria. Fazia contagem regressiva pro final do empréstimo para ter coragem de pedir um irmão. Sabia de bom grado todas as chatices que a escola pedia que as crianças da sua idade decorassem. Sentia seu corpo em demasia, dois dias antes de ter dor de cabeça, já sentia e sabia que ela viria; algumas horas antes do pai gripar, ela sentia também; e também sabia exatamente que dia a mãe sofreria mais ou menos da fibromialgia. Uma tia materna de Clementina dizia que ela tinha puxado a avó, que era bruxa. Um tio paterno quis levar a menina a um centro espírita, dizia que ela tinha que aproveitar a sensitividade. Clementina ouvia e só achava esquisito todos aqueles dizeres sobre ela.

Enquanto isso, a pequena alternava seu sofrimento entre ter a consciência pesadíssima por dormir na cama dos pais – e passar a noite com os olhos estatelados, pensando, pensando, pensando.

Um dia, Clementina estava tranqüila, tinha dormido naquela noite na cama dos pais e por alguns instantes conseguiu saber que aquilo não estava escrito na sua testa. Relaxada, ela fazia a tarefa que a professora tinha pedido, desenhando delicadamente com o compasso o enunciado do problema, a fim de iniciar a resolução.

Foi quando Zequinha, o colega que sentava atrás dela, cujo barulho da respiração dele costumava incomodá-la a ponto de lhe deixar ocasionalmente com dores de cabeça fortíssimas, motivado pelos amigos, decidiu ceder à pressão deles, e como prova de sua enooorme virilidade, topou a tarefa de grudar um adesivo nas costas de Clementina. Conhecedor da fama de brava da menina, Zequinha rezou três anjos da guarda antes de iniciar a tarefa, pois, desajeitado que era – na educação física nunca tinha conseguido acertar o saque por cima e nem fazer mais do que duas embaixadinhas – pensou que seria uma tarefa difícil mexer com Clementina, mas que se desse certo, ganharia muitos pontos com os amigos.

Assim, Zequinha escolheu um adesivo qualquer do caderno e delicadamente tocou a parte grudenta no algodão da camiseta dela – mas tão, tão delicadamente, que o adesivo caiu no assento da carteira de Clementina. Animado pela adrenalina e sentindo-se corajoso com os risos dos amigos, Zequinha pegou outro adesivo e o colocou com menos delicadeza nas costas dela, terminando a tarefa já de olhos fechados e pensando num discurso para se explicar para a menina, brava, brava.

Mas, surpreendentemente, ao terminar a tarefa, suado e nervoso, e com um branco lhe habitando o lugar das orações – nada aconteceu. Clementina nem percebeu. Os meninos riam, nervosos e excitados. A menina girava o compasso pra lá e pra cá, fazia marcas e marcas no papel e nada de olhar pra trás – logo ela, que tudo via, tudo sentia, tudo olhava, tudo reprovava com os olhos de fuzil…! Os meninos riram até pararem naturalmente, sem nem perceber, tal como uma criança pequena pede aos pais que contem a mesma história, repetidas vezes, todo-santo-dia, até que simplesmente não pede mais, mas ninguém sabe dizer em que momento ela parou.

Foi só ao tocar o sinal para o recreio que Clementina levantou-se para ir ao banheiro. Assim que ficou de pé os meninos caíram num ataque de riso incontrolável, pois viram que ao invés de um adesivo nas costas, a menina tinha também um outro adesivo grudado na bunda.

Os meninos foram à loucura, o riso era geral, desproporcional e absolutamente sem controle. Clementina não sabia por que riam, mas sabia que era com ela. Zequinha sofria, porque sabia que a menina sempre sabia de tudo e que ela ia descobrir que tinha sido ele, e não conseguia nem rir porque quando ela olhou nos olhos dele, ele a viu lendo os seus pensamentos. Então, mais do que depressa, na tentativa de postergar um pouco a bronca que receberia, ele disse, agressivo: Por acaso você não sente quando tocam em você, sua doida? Ela balançou que não com a cabeça, entendendo que havia algo num pedaço do seu corpo onde ela não enxergava, e enquanto ia para o banheiro, sorria um sorriso largo e sentia algo novo em si que ela não sabia explicar: então, ela não sentia tudo.

Foi assim que começou a amizade mais verdadeira de Clementina, num ponto cego de si, assim como são todas as coisas que até hoje verdadeiramente a tocam: em um lugar nela mesma onde ela não sente que sente.

 

Ana Suy

Um comentário em “CLEMENTINA E ZEQUINHA

  1. Ana,
    Perco a noção do tempo lendo seus textos… E como é bom!
    Obrigada por compartilhar

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