Horrivelmente perfeito

Você é tão horrivelmente boa!

A raiva e o desprezo na voz dele eram palpáveis, e a reação dela naquele momento foi a mesma de quem se sente prestes a ser atacado, pupilas arregalando e pálpebras fechando, corpo retesado, respiração presa; mas o ataque não veio. Ele ainda exalava raiva por todos os poros, ela podia sentir o cheiro, mas ambos permaneceram exatamente onde estavam, olhares travados um no outro, esperando quem atiraria a próxima pedra.
Ninguém o fez. Ao invés disso ela, meio sem querer e ao mesmo tempo desejando muito, sorriu,

Quanta contradição numa frase tão curta.

Ele continuou calado, os olhos ainda nela. Abriu e fechou a boca sem dizer nada, e ela ficou em dúvida se ele pretendia falar alguma coisa e desistiu ou se estava apenas forçando a respiração. Ele seguia respirando profundamente, e a cada vez que ele expirava a raiva parecia abandonar seu corpo junto com o ar, até que numa dessas palavras foram expelidas sem o veneno de antes, carregadas apenas de cansaço,

É que você é boa demais, você sempre entende, aceita, escuta, sempre oferece a palavra certa.
E isso faz com que você se sinta falho e inadequado, por isso me detesta tanto, ela concluiu por ele.
Tá vendo, é exatamente isso que eu quis dizer. Você entende a minha raiva e a desconsidera por compreendê-la, e isso só faz com que eu me irrite ainda mais, ele disse aumentando o tom de voz.

Ela novamente sorriu, e dessa vez o fez com plena consciência e vontade,
Você é a única pessoa que crítica minha bondade. O único que ao invés de me agradecer pela ajuda, reclama. Talvez eu seja horrivelmente boa, mas você é perfeitamente insuportável.
E por que você ainda não foi embora, então?
Não sei. Por que você também não foi?

Até hoje, muitos anos depois, nenhum dos dois foi capaz de responder essa pergunta.

Carina Destempero


Desafio da Semana:

7/08 - O que não era para ser, mas foi

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