Kintsugi

As árvores passavam voando ao seu lado. 

Vultos estáticos.

E mesmo sabendo que eram somente árvores, ela jurava que ouvia assobios. 

Com certeza eufóricos com a sua rapidez. 

O vento continuava, e não desmentia. 

Pedais compassados, ultrapassavam seus próprios recordes. 

Para Akemi, ter uma irmã gêmea era todo dia tentar ser outra. 

Alguma que fosse completamente única. 

Subia na bicicleta e fugia do seu espelho. 

Fugia de si mesma. Sem saber que se a olhassem por dentro, saberiam que não existia nada igual. 

Quando o guidão serpenteou, ela só teve tempo de apertar o freio com força. Azar que foi com a mão errada. A roda traseira levantou revoltada. 

Em câmera lenta ela viu a estrada de terra se aproximar da sua boca. 

Mas seu primeiro beijo não foi nada suave. No início a estrada achou que Akemi tinha gostado, tamanha foi a cambalhota que a menina deu. Mas quando viu que a pirueta não era de alegria, se vingou ainda mais. Cada pedacinho do corpo dela foi sendo ralado. E igualzinho uma macarronada, foi manchando a roupa toda. O pior de tudo foi o osso. Tia Ada odiava quando ficava osso de frango junto do molho. E o osso da perna da menina definitivamente deu as caras. Tava lá, branquinho chorando sangue. Ela mesma não conseguiu chorar. Ainda estava atordoada. Um menino bobo se aproximou e falou debochando, vixi, cê tá toda quebrada, nunca mais essa perna fica igual. O mundo congelou mais que na hora do tombo. Akemi olhou bem nos olhos dele. Todo o rio que tava preso nela, desaguou nos olhos, mas foi de alegria. Ela era única. No mundo todo, nenhuma perna seria parecida com a dela. Ela não era mais gêmea. Podia ser ela. 


Desafio da Semana:

7/08 - O que não era para ser, mas foi

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