Romance inacabado

Você acorda e se pergunta: onde estou? Como em tantas outras noites antes dessa, você acorda e está num quarto de hotel. A chave está em cima da mesa de cabeceira ao lado do seu bloco de notas. Você não reconhece o número do quarto. Talvez você esteja aqui pela primeira vez, mas talvez esteja há uma semana, três meses, difícil dizer. Você não sabe. É apenas mais um quarto anônimo. Você tem vivido assim, anônimo. Vive como um cão adestrado. Hábito e rotina tornaram sua vida possível. Condicionamento. Ação por instinto. Isso parece funcionar para você. E aí você se levanta, senta na beirada da cama, e pega o bloco. Revê as anotações do romance. Fragmentos de texto, frases desconexas, palavras soltas.

Ela disse alguma coisa em inglês naquela noite no bar e você não entendeu. Você achou que ela estava tirando onda com a sua cara, mandou ela à merda, falou um monte. Ela poderia ter respondido você com a mesma violência verbal, afinal fora apenas um comentário espontâneo, inofensivo, mas não. Ficou apenas assistindo a tudo com uma serenidade inexplicável. Parecia ter uma certeza que você só entenderia meses depois, quando já seria tarde demais.

Sua arrogância, sua prepotência de homem autossuficiente foi desmanchando e você não percebeu. Vocês foram encontrando uma forma de se comunicar. E quase sem querer, ela conseguiu alcançar um lugar de você totalmente inexpugnável. E aquelas palavras que fizeram você explodir no bar, aquele dito tinha alguma coisa de não dito. Algo que reverberou fundo em você. Um encontro silencioso com tudo que você tinha trancado.

Come, come here. Vocês num quarto de hotel. Ela percorreu com os dedos finos as tatuagens que você têm pelo corpo. Imagens confusas, símbolos religiosos, frases. Algumas escritas de trás para frente. Ela parecia entender essa cartografia estranha que você inventou para se proteger. E, aos poucos, ela foi removendo defesas e revelando vulnerabilidades. Suas e dela.

Você não sabe dizer há quanto tempo ela se foi. É como se você acordasse e ela não estivesse na cama pois foi ao banheiro ou algo assim. Mas de alguma forma, você sabe a verdade. Se você pudesse esticar o braço e tocar o outro lado na cama, saberia que está frio, mas você não faz isso. Procura a próxima página em branco no bloco e escreve.

Você não quer acordar numa outra manhã achando que ela ainda está aqui. E então você se deita novamente sem saber há quanto tempo está sozinho, sem saber que dia é hoje, se está sonhando ou se está acordado. O mundo não desaparece quando se fecham os olhos.

Como poderei me curar? Como vou cicatrizar se não consigo mais sentir o tempo?

Luis Mangi


Desafio da Semana:

7/08 - O que não era para ser, mas foi

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