A janela aberta é o fim desta história de separação

Numa manhã, ao despertar de sonhos inquietantes, Tiago deu por si na cama transformado num minúsculo grão de poeira.

O quarto ao redor era gigantesco. O mundo nem medida tinha. A vida é muito grande quando você é um nada.

Acordar pra ser inútil era melhor não acordar. Mas esse não é o ciclo. Enquanto se está vivo, os olhos abrem.

Tiago continuou procurando. Os olhos demoraram a se acostumar com a nova proporção das coisas. Achá-la não seria uma tarefa tão fácil agora.

Móveis eram colinas. O tapete era um grande pasto. A tevê fazia um som ensurdecedor. Ao menor sinal de rotina, tudo doía. Tudo era exagero.

Um raio de sol passa pela janela e cega Tiago momentaneamente. Ele tenta se mexer e não consegue. O ar é mais pesado. Viver não é mais tão fácil assim.

Os cheiros são muito fortes. O latido do cachorro, mesmo lá fora, é destruidor. A casa é tão grande que parece que nunca mais será ocupado por ele.

Depois de algum tempo, a visão se acostuma com o novo jeito de ver o mundo. O difícil foi perceber que ela não era mais ela.

Numa manhã, ao despertar de sonhos inquietantes, ela deu por si na cama transformada num assustador ventilador ligado.

 


Desafio da Semana:

18/12 - Metamorfoses ambulantes