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Numa manhã, ao despertar de sonhos inquietantes, Ana deu por si, na cama, transformada numa gigantesca e rabiscada folha sulfite. Sem reconhecer nenhum pedaço de seu corpo, se sentia frágil e desorganizada. Por algum motivo ela tinha olhos, tinha boca, tinha ouvidos, mas nada disso ela podia reconhecer no espelho, que só mostrava os rabiscos nos quais ela se tornou naquele formato opaco. Não podendo ler a si mesma, ela se colocava para os outros e pedia que eles a lessem. Ouviu coisas absurdas, das mais lindas às mais horrorosas. Ouviu coisas que a agradaram e coisas que a irritaram profundamente. Mas aquilo era o que ela devia ser, afinal de contas, ela não podia ler a si mesma, então, deveria acreditar no que os outros diziam dela, não é?
Em certo momento do dia, ao observar a si mesma, em silêncio, observou que haviam vários espaços em branco. Ora, então, ela não estava inteiramente escrita, haviam espaços para que ela se escrevesse. Isso lhe causou um enorme alívio. Foi assim que ela parou de perguntar tanto para os outros o que liam nela, porque percebeu que cada um que lia algo nela, só conseguia ler um pedaço. Não havia sequer uma pessoa que a conseguisse ler toda de uma vez. E se ela se apegasse exclusivamente a um pedaço seu, então mortificava o resto.
Entendeu, então, que ela sempre seria muito mais do que o outro via. Para além disso, descobriu que haviam escritas que estavam sempre lá e outras que volta e meia se apagavam, abrindo novos espaços de escritura.
No final do dia, ao voltar para a cama, Ana entendeu que ser uma gigantesca e rabiscada folha de papel sulfite era apenas uma de suas facetas. Seu corpo estava ali, ainda, como sempre estivera,e ao mesmo tempo, como nunca estivera antes.


Desafio da Semana:

18/12 - Metamorfoses ambulantes