O que fica de nós

O que será que fica desse tempo que vivemos? Quais são as músicas gravadas hoje, que daqui há 50 anos alguém vai tirar no violão. Quais livros recém lançados, cairão nos vestibulares do futuro. Será que minha filha, agora na barriga, vai querer emprestada a bolsa que comprei há um mês? Há um mês eu não sabia de filha. Nem queria saber. E agora, toda noite acendo o abajur e conto pra ela do mundo. E aprendo também. Bolsa mesmo, agora me tem outro significado. Esses dias me peguei pesquisando qual era a maior palavra do dicionário. Criança gosta dessas coisas, quero saber explicar. Tem tanta coisa que não sei e queria saber explicar. Imagina só como era criar um filho sem o Google. O “porque sim” deve ter surgido daí. Fico pensando o que vai surgir pra deixar o Google obsoleto. Queria estar aqui pra ver. Uma geração inteira se surpreendendo e outra achando normal. Ontem no jantar, o avô dela me entregou um presentinho. Era um vestido todo de girassol. Um amor. Mas é o vigésimo vestido “de boneca” que ela ganha, junto com o conjunto de panelinhas que minha irmã deu. Achou fofinho. Me preocupa muito colocar uma menina no mundo. Se não me sinto segura, como proteger ela de um lugar que eu sei, não é preparado para receber mulheres? Tem tanta coisa que eu gostaria de poder consertar antes dela chegar. Igual arrumar o quarto, preparar a malinha do hospital, queria fazer uma limpa nas pessoas abusivas, no mau-caráter, impedir que ela dê de cara com o absurdo que muitas vezes vivemos. Como amenizar? Fiz uma lista. Grifei com caneta marca texto, vou ensinar ela a ter voz. Não estou lançando um álbum pra ficar famoso, mas estou lançando uma mulher no mundo. E te garanto, vou fazer de tudo pra ela ser ouvida.

 


Desafio da Semana:

13/12 - Palavras soltas