Engasgo

Nada fez tanto pela minha fé quanto morar sozinho. Não pela minha fé em Deus, quero deixar claro, mas pela minha fé no sobrenatural.

Quando a janela treme à noite, ou o assoalho estala, ou algum barulho parece vir de dentro de casa, a certeza vem na hora: É um fantasma.

Não é algo que me assuste, é só a explicação mais tranquila possível.
Botando a culpa no fantasma, não preciso me preocupar que o encanamento está com problemas, ou que a cozinha está com baratas novamente, ou que pode ter algum bandido caminhando enquanto eu durmo.

Mas morar sozinho é isso: estar consciente de que os perigos estão sempre bem dispostos, e a qualquer momento podem te atropelar violentamente. Problemas? Torça para que seja um fantasma.

Caso contrário, você está sozinho.

Como estou sozinho agora, olhando esse copo de água encher devagar – maldito filtro de água. Adianta beber água purificada se ela cai quase a conta-gotas no meu copo?

Mas também não posso ter pressa. Só eu sei como a pressa me atrapalha.
Foi a pressa que me fez sair daquela casa estranha com uma família esquisita para alugar um apartamento sozinho, sem me preocupar se aqui há baratas, ou problemas de encanamento, ou invasões.

Foi a pressa que me fez pressionar demais minha última paixão pra que a gente morasse junto, porque estávamos demorando demais para dar um próximo passo, e que desembocou em eu estar aqui sozinho, bebendo água de conta-gotas e acreditando em fantasmas.

E foi a pressa que me faz tomar água sempre desesperado e acabar me engasgando.
Toda vez, cada mísero copinho de água que eu boto na boca termina em um engasgo.

Mas como me segurar quando o que aparece na minha boca é um copo pronto a me inundar a boca com água?

Como impedir a inundação quando eu tenho tanta sede?
Como, como levar as coisas devagar se eu tenho tanta ânsia de seguir em frente logo?

E como não ter pressa de beber água quando esse maldito filtro demora tanto para encher meu copo?

Encheu. Ótimo, vamos logo. Bebo tudo num gole.
Me engasgo, claro.

Tusso, tusso, levanto os braços, dou uma batidinha no peito. Pronto. Meus olhos estão cheios d’água mas sobrevivi.
Minha sede não cessou. Ainda me sinto engasgado.

Agora, deixe-me voltar ao meu dia.
Tenho uma casa vazia, problemas de encanamento, algumas baratas e meus fantasmas pra me acompanhar.

Flávio Voight

http://www.facebook.com/flaviovoight


Desafio da Semana:

29/01 - Tenho sede