EQUILIBRISTA

Doeu, doeu, doeu, quando você disse que ia embora. Mas nem doeu tanto assim. Foi um misto de sensações. Sabe quando a gente sente alguma coisa e outra ao mesmo tempo? Tipo o instante que antecede à angústia das cócegas, ou a última respiração gostosinha quando já se sente a boca ardendo em pimenta com um bolo de comida que muito em breve será cuspida. Tipo o alívio que se sentia antigamente, quando o merthiolatte ardia na pele, mas se sabia que era um ardor de cura. Tipo qualquer coisa da vida, pensando bem. Porque se a gente prestar bastante atenção em cada coisa que faz, nada escapa a essa duplicidade. Cada respiração a mais é um passo mais perto em direção à morte, cada palavra dita é a impossibilidade de dizer todas as outras naquele tempo. Então, quando você disse que ia embora, o que aconteceu, foi que senti a vida em sua máxima potência. Senti que o meu corpo virou uma ampulheta, e eu me tornei pura oscilação, pura ambiguidade, puro intervalo – entre aquela que não ia sobreviver sem mais daquilo e aquela que não aguentava mais ser tomada por tanto sentimento. Foi entre o excesso de você em mim e o excesso de mim em mim causado por você, que encontrei um pontinho meu aqui, ao qual chamei de salvação. Desde então, é nesse ponto em mim que tenho tentado morar. E tenho pago um aluguel altíssimo para morar nesse lugar pequenino, porque o ponto em mim onde eu tinha construído minha casa própria, onde eu me reconhecia no espelho e falada pelos outros, tornou-se pesado e caro demais para mim. Pagar aluguel, por ora, tem custado menos de mim, embora me seja mais caro.


Desafio da Semana:

19/02 - Quando o sol se curva

Deixe uma resposta