Arde

No exato momento em que ele piscou lentamente para mim eu soube que tudo o que vivemos até ali tinha acabado, que a partir dali nada mais seria parecido com o que havia sido até então. Dói tanto quanto perder alguém de morte morrida, eu pensei. A partir do instante que o amor de uma pessoa por outra termina, já não há mais o que fazer. É possível lamentar, espernear, é possível gritar. É possível se sentir injustiçado e demandar ser amado. É ainda possível que o outro seesforce para tratar bem, pode ser que o outro se sinta culpado e encha seu ex-objeto-de-amor de beijos, de carinhos, de mimos. Mas é tudo um grande vazio insosso que inevitavelmente vai levar a uma nova piscada de olhos lenta, que vai despertar de novo no outro o sabor amargo de saber que a luz que houve um dia entre eles se apagou. E, não, novamente não. Não quero sentir isso de novo. Sentir o seu desamor por mim uma vez nessa vida já está de bom tamanho. Mais do que isso não poderei suportar. Ainda que você não tenha dito que não me ama mais, seus olhos me anteciparam essa noticia. Já escutei o brilho dos seus olhos me negar amor. Depois do não, todo o resto é assédio. Por isso vou-me embora. Não quero te assediar, o que eu queria era ter sido sua sede, eu queria ter sediado seu desejo de permanecer em meu corpo por um tempo parecido com o infinito, eu queria ter sido quem em sua vida te levasse a ceder, queria ter sido cedo para você, sempre manhã em sua vida. Mas algo deixou-nos precocemente tarde. Ai, como isso arde.

Ana Suy


Desafio da Semana:

23/04 - Depois dos nãos