Brigadeiro de colher

Eu costumava pensar em como seria quando eu tivesse 35 anos. Me imaginava casada com um homem de óculos (?), professora de alguma matéria que eu não sabia qual, com um filho de 10 anos. Achava que eu saberia costurar, colocaria a perna na cabeça (não sei porque, mas isso foi um objetivo meu por muito tempo), que eu cozinharia horrores e faria um doce diferente por semana. Me imaginava sempre cuidando do meu marido, da minha casa, sabendo de um tudo sobre a vida. Sem saber que os meus quereres já refletiam que eu não sabia de nada.

 

Eu me imaginava séria e velha com 35 anos.

 

Lembro do exato momento em que tudo mudou. Carolina me levou pra passar um ano novo em Florianópolis. A gente ficou numa casa enorme, com um monte de gente animada e engraçada. Lembro que a Má foi pra praia jogar vôlei e a gente foi junto. Ela era linda, uma das pessoas mais joviais e engraçadas que já conheci. Namorava uma outra menina da casa. Foi o primeiro casal de meninas que eu convivi. Depois descobri que eu já conhecia outros, mas não percebia. Achei incrível a possibilidade de mulheres se namorarem. Os seios, o formato do corpo, a força individual. Eu sempre vi o feminino como uma coisa sagrada. Como eu não tinha pensado antes em me relacionar com uma mulher? A imagem poderosa da Morgana das Brumas de Avalon estava na minha cabeça e achei lindo que se eu quisesse poderia namorar uma mulher tão incrível quanto ela. Entendi o que é a sociedade e os padrões que ela impõe. Tive raiva de ter sido privada todos os anos anteriores de experimentar algo novo e que deveria ser completamente comum. Sentada na areia vi a Ma sacar e a Carlinha receber a bola de um jeito que pareceu fácil. Eu comentei com a minha prima que elas jogavam muito bem. Ela me contou que era a profissão delas. Jogadoras de volei. Fiquei impressionada. Perguntei quantos anos elas tinham, meio que fazendo a conta se ia dar pra eu ser igual a elas. “A Carlinha eu não sei, mas a Má fez 35 agora”.

Trinta e cinco anos.

Uma mulher, que namorava outra mulher, só sabia cozinhar brigadeiro, era jogadora de vôlei, linda de morrer, engraçada e tinha 35 anos. Definitivamente essa era uma opção de ideal de vida mil vezes melhor do que a que eu tinha. Um ideal que não existia antes desse final de semana. Que não está no dia a dia de muita gente, nem na TV, mas deveria. Não sei se algum dia vou colocar a perna na cabeça, mas naquele dia eu coloquei que posso ser quem eu quiser. Que posso ser muito mais do que eu imaginei.

 


Desafio da Semana:

10/09 - Eu costumava pensar…

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